
Antes de embarcar para uma viagem de avião a trabalho, pouco antes da pandemia do Coronavírus, em fevereiro, vi uma oferta imperdível em uma livraria do Aeroporto de Fortaleza. O livro “Turbinado – A história de Carlos Ghosn, o brasileiro que salvou a Nissan”, por apenas R$ 10,00. Mesmo sabendo que foi escrito em 2003, pelo jornalista norte-americano Davi Magee, decido comprar, impulsionado pela curiosidade em torno do “fugitivo do Japão”, como parte da mídia apelidou o brasileiro-franco-libanês Ghosn (André Marinho – Jornalista)

Personagem da cinematográfica fuga da prisão domiciliar em que estava em Tóquio, no final de 2019, Carlos Ghosn, que nasceu em Rondônia, no Brasil, teve sua história descrita no livro, partindo da infância no Brasil e Líbano, ao seu papel de salvador de empresas de pneus como Michelin América do Sul e América do Norte, além da fabricante de automóveis, Renault, ambas francesas. Vamos a uma rápida biografia do homem, por trás do mito. Ghosn nasceu em Porto Velho, Rondônia, dia 9 de março de 1954, filho de pais libaneses. A mãe tinha cidadania francesa e o pai, brasileiro. Quando Ghosn tinha seis anos, a mãe levou todos os filhos para o Líbano.
“Ghosn era tão conhecido por sua personalidade forte que o levava a desafiar a autoridade e a se lançar em novos caminhos, que sua inscrição em seu livro do ano na formatura dizia ‘Carlos Ghosn, futuro líder de um movimento guerrilheiro na América do Sul’”, escreve David Magee, no início do livro. Daí já podemos ter ideia do comportamento de Ghosn. Além disso, tinha como preceitos essas técnicas que lhe ensinaram: “Seja transparente e explique-se com termos lúcidos e claros; faça o que diz que irá fazer; escute primeiro, depois pense”. Esses preceitos o perseguiram durante toda sua carreira como gestor e “salvador de empresas”.
O então estudante optou por fazer engenharia da alto nível em Paris, França e morou no Quartier Latin, área famosa pela boemia, mas ele passou longe das farras. Viajou aos Estados Unidos em 1976 e passou várias semanas com amigos no Colorado, Califórnia, e em Nova Iorque, onde aperfeiçoou o seu inglês. Como se vê, um cidadão do mundo. Fluente em português, francês, libanês e inglês.
Em março de 1978 um telefonema mudou sua vida. Um diretor do grupo Michelin, empresa privada com sede na França precisava de engenheiros formados no País e que soubessem falar português para ajudar a empresa a entrar no mercado brasileiro. Ghosn estava terminando as exigências para fazer mestrado e pensando em fazer doutorado, mas decidiu topar o desafio. Afinal, além do desafio, poderia voltar a América do Sul.

A partir daí, o escritor aborda sua trajetória na Michelin e Renault para aí sim entrar no plano revolucionário de reestruturação da Nissan, que estava para ir a falência. Foi a hora de Ghosn usar aqueles três preceitos que citei no início e fugir do lugar comum das técnicas de gestão, até porque muitos conflitos aconteceram em relação a forma de administrar e tomar decisões no choque de culturas franco-japonesa. Mas o autor do livro peca em não entrar mais fundo nesses conflitos citando fatos específicos, até porque a obra me parece ter tido o aval completo de Ghosn e da Nissan, ou seja um livro encomendado.

De qualquer forma, vale ler o livro para ver como Ghosn afrontou dirigentes da Nissan e gerou o ódio de muita gente no Japão ao demitir mais de 16 mil japoneses e outros 5 mil de outros países em fábricas da marca pelo mundo. Isso com certeza gerou muitos conflitos políticos, jurídicos e empresariais para Ghosn. Mesmo assim, Ghosn teve sucesso e deixou a Nissan com lucro e crescimento ao sair para voltar a Renault, que comandou até 2018.

Fuga do Século – A história a seguir é conhecida. Ghosn foi surpreendido e preso. Promotores japoneses afirmam que Ghosn fez um pagamento de propina multimilionário a um distribuidor da Nissan em Omã. A empresa, por sua vez, fez sua própria acusação contra Ghosn, dizendo que ele desviou dinheiro da companhia para enriquecimento pessoal.
Ele também foi acusado de declarar ao governo um salário menor do que o que realmente ganhava.
Mas Ghosn insiste que não é culpado de nenhuma das acusações contra ele. Diz que é vítima de uma conspiração para derrubá-lo por causa de preocupações sobre a crescente influência da Renault sobre a Nissan, sob seu comando. Os advogados de Ghosn disseram que ele teria que esperar cinco anos por um julgamento, segundo ele. Então, disse ele, não foi difícil chegar à decisão de que ele teria que “morrer no Japão” ou “sair”.

Ele se descreveu com um “refém” do país, onde trabalhou por 17 anos como chefe da Nissan. Algum tempo depois ele foi libertado sob fiança e colocado em prisão domiciliar, mas proibido de ver sua mulher. No final de 2019, ele escapou da prisão domiciliar em um jatinho privado que o levou para Turquia. Depois, viajou para o Líbano e se reencontrou com a esposa. Foi a “fuga do século”.
Ghosn cresceu no Líbano, tem imóveis por lá e é uma figura popular no país. Sua imagem chegou a ser estampada até em selos postais.
Vai virar filme e livro? – O governo japonês descreveu a fuga de Ghosn como “injustificável”. A Nissan afirmou que a fuga foi “extremamente reprovável”. A história pode virar filme ou série no Netflix.
O jornal francês Le Monde diz que ele teria fechado um contrato exclusivo com a Netflix. O brasileiro teria feito isso para “controlar o cenário em que sua história será contada”. A publicação não dá mais detalhes sobre a produção, e então não sabemos se será uma série ou um filme.
E com certeza virá outro livro, esse sim, sobre a “Fuga do Século”, e em primeira pessoa, com Ghosn contando os bastidores dessa história bombástica.
Serviço: “Turbinado – A história de Carlos Ghosn, o brasileiro que salvou a Nissan”, de David Magee. Editora Record, 2003, 288 paginas. Preço médio: R$ 48,00




